In Favilla

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reservedSão Paulo, Junho de 2013 | Fotografia © Jorge Luiz Campos

O atrito cotidiano em São Paulo, me deixou anestesiado mas não fez de mim um fósforo frio, completamente queimado. Quando eu estava a um passo de me convencer de que a insalubridade que eu via na vida era na verdade, um problema de adaptabilidade da minha parte, minhas questões se deflagraram uma a uma como grandes questões coletivas. Um projeto de poder megalomaníaco se apropriando de toda a cultura digital, a violência policial, o transporte público… Vieram as jornadas de junho e eu estava lá, cansado mas de pé, caminhando entre meus companheiros de luta. Na fatídica noite de 13 de junho, enquanto eu subia um pequeno trecho da Consolação em direção a Avenida Paulista, experimentei o sagrado ao passar por um grande grupo de rostos familiares, os cumprimentei com olhares e abraços mudos pois o barulho dos helicópteros que nos observavam como o condor a carcaça, anulava qualquer possibilidade de comunicação verbal. Todos os abraços tinham também um tom lúgubre, tanto pela convergência do momento quanto pela prevista dissolução logo em seguida. Ali entre a Maria Antônia e a Roosevelt, algo importante morreu mudo para dar a luz a um estardalhaço cacofônico que nasceu em seguida, com uma força incrível e completamente fora do controle.

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reserved

Fui alvo das primeiras bombas atiradas na Maria Antônia. Por algum motivo, era possível sentir no ar que não haveria saída daquele episódio, então decidi não correr como em vão, fez a maioria. Rapidamente, chequei a configuração de duas pequenas ruas laterais que davam acesso a praça Roosevelt, que naquela altura já estava cercada pela polícia encurralando uma massa enorme de manifestantes. Entendi o que iria acontecer e usei esse espaço para alternar entre as áreas espremidas pela tropa de choque. Mesmo com um helicóptero, eu tinha certeza que um comandante da PM não move tropas em um território com a mesma precisão de um jogador de Starcraft, consegui sair ileso por trás de uma das linhas da tropa de choque enquanto a outra avançava do outro lado, comprimindo quem tentou correr ou enfrentar a polícia.

Nas manifestações posteriores a 13 de junho, a atmosfera era completamente diferente. A opinião pública havia mudado de lado e eu não vi mais rostos familiares nas ruas. Assisti um companheiro do PSTU ser atacado por um matilha feroz e infinita de hienas sorridentes com flores nos cabelos antes mesmo que tivesse a oportunidade de se agrupar com seus pares. Fiquei na forja tempo de mais para me iludir ou me deslumbrar com aquele mar de cara-pintadas. Onde alguns viam uma revolução eminente, eu via a face do espírito fascista da população paulistana tomando as ruas, dissolvendo bandeiras de luta com suas caras pintadas e cantos genéricos.

Fotografei sem entusiasmo e sem fazer alarde, como um pai que se vê obrigado a embalsamar um filho morto em combate.

Indiferença

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reserved
Mídia Ninja Transmitindo a Comissão Extraordinária de Direitos Humanos | Fotografia © Jorge Luiz Campos

Já não me recordo de todos os frames que queimei desde a última vez que estive no Othon. Não foram muitos, um rolo ou dois. Mas me recordo muito bem da falta fé que experimentei naqueles dias. Falta de fé na fotografia como instrumento de promoção de mudanças sociais, falta de fé na esquerda, nos grupos com os quais eu me relacionava, falta de fé no futuro. Cinco anos depois dos meus primeiros e pretensiosos disparos e a única coisa que consegui mudar com minha fotografia foi a minha própria vida. Não necessariamente para melhor pois me tornei uma espécie de mutante juvenil, completamente mutilado pelos processos sociais que experimentei. Sem nenhuma esperança de encontrar meus pares ou construir um futuro autêntico, segundo meus critérios.

Hoje, olhando para aqueles rolos de filme que repousam sobre o meu arquivo de fotocópias, alvos injustos do meu desinteresse, me lembro vagamente de ter conversado mais com os moradores do Othon na segunda visita que fiz. Não por eu estar animado com o trabalho mas pelo simples fato de ter visitado o edifício em um momento mais movimentado da rotina do lugar, de forma que eu me via impossibilitado de transitar sem me reportar e interagir com os moradores, seria grosseiro da minha parte passar por ali mantendo uma postura introspectiva. Eu havia perdido o entusiasmo mas felizmente, me restou o respeito pelas pessoas.

Me impressionou uma senhora de bastante idade carregando dois baldes de água supostamente potável pela altura do 12º andar, conversando com ela, descobri que todo o sistema de água do prédio havia sido desligado, qual fosse a necessidade de água, todo o abastecimento do edifício deveria ser feito por baldes e galões levados aos apartamentos pela escada pois o elevador também não funcionava. Evidente que os moradores dos andares superiores sofriam mais com a situação. Me recordo também de ter passado longas horas sozinho no terraço cuja vista era esplêndida, com aquela altura e localização, com certeza era um dos melhores mirantes da cidade. Fiz algumas fotografias no alto, fotografei vários pousos de helicóptero no heliporto da prefeitura. O terraço do Othon era um bom lugar para monitorar os figurões que chegam de helicóptero na prefeitura a todo momento, alguns faziam selfies com seus celulares antes de deixar a área de pouso. Um ritual curioso.

Mais tarde, da mesma tarde ou em outra, já não importa. Me lembro ter sacado a câmera e queimado mais dois ou três frames em uma reunião na SP Escola de Teatro depois de outra reunião com Ivam Cabral. Ele fez questão que eu participasse de uma reunião que compunha o processo de criação de uma peça seguindo um método bastante estranho e simetricamente curioso para um leigo como eu que desconheço todo o "back end" das artes cênicas. Em seguida, levo o Ivam a uma sessão da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, organizada por alguns companheiros de ativismo na praça Roosevelt em frente ao teatro. Queimo mais dois ou três frames e volto pra casa depois de um telefonema da Bruna, dizendo que estava passando mal. Crise de pânico ou ansiedade, talvez os dois ao mesmo tempo. E é possível que nem mesmo isso me importasse mais.

Introspeções de Campo

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reservedBorges & Família, Hotel Othon, São Paulo, Abril de 2013 | Fotografia © Jorge Luiz Campos

Olhávamos de uma Janela arredondada do quinto andar de um edifício antigo onde funcionava uma espécie de galeria de arte experimental, um lugar luxuoso onde acontecia uma festa particular oferecida por artistas residentes no local. Do lado oposto da praça onde estávamos, um arranha-céu adornado com luzes amarelas bloqueava o horizonte, tão grande que parecia desafiar a prefeitura a sua frente. Eu estava acompanhado de três artistas, dois francês e um espanhol naturalizado em Portugal. Guillaume Pazat, um dos franceses, já estava um bocado ébrio e possivelmente cansado de tanto gargalhar. Em um momento de contemplação – talvez introspecção – do grupo, ele diz: “É aqui o Othon”. Foi como um convite para um mergulho, fez-se um vão de silêncio entre o grupo, silêncio rompido apenas por tragadas profundas no cigarro e na consciência.

Sem desgrudar os olhos da janela, o espanhol diz: "Essas luzes amarelas, não parece que ainda é um hotel?” O outro, infeliz, completa: “Estão aí para ser documentados”. Foi assim o meu primeiro contato com o Othon, um edifício imponente construído para ser um hotel de luxo, habitado agora por trabalhadores ligados ao movimento dos sem teto.

Retornei ao local na segunda-feira seguinte, armado com minha velha Canon A2e, uma excelente 35mm e um filme Kodak ISO 200 de 36 frames. Dessa vez, eu não havia pesquisado previamente sobre meu assunto, não sabia se era de fato uma falange integrada ao MTST, se eram independentes, moradores de alguma favela incendiada... moinho talvez? Não sabia. Cheguei cedo ao local, havia três pessoas na recepção que me pediram para esperar o coordenador do movimento que provavelmente, ainda estava dormindo. Fui convidado a me sentar em um sofá atrás do balcão instalado em frente a porta de entrada, no primeiro lance de escadas da recepção de forma a bloquear o caminho até onde foi o verdadeiro balcão da recepção do hotel. Antes de terminar de me acomodar, reconheci no ar, um odor que tenho certeza que muitos dos caros leitores, jamais irão experimentar. Não era bem um cheiro de dejetos ou de esgoto, mas um tipo mais sutil de mau-cheiro que me fez lembrar as semanas que passei na Argentina acompanhando um grupo de artesãos nômades que por necessidade, passavam semanas inteiras sem banhar-se. Mesmo quando estes — e também eu — se limpavam de forma apropriada, o cheiro permanecia em suas roupas e mochilas, de forma que nunca mais esquecerei. Aquele odor é como uma tag escrita “pobreza” de maneira sinestésica no meu subconsciente.

No longo período a espera do coordenador do movimento, percebi gradativamente, um relaxamento na postura das pessoas na recepção que começam a conversar naturalmente como se eu não fosse mais um corpo estranho ali. Esperei por algumas horas e pude observar as pessoas que passavam bem arrumadas, substituindo em alguma medida, o cheiro que pairava no ar por um cheiro agradável de banho. Um jovem rapaz pede a senhora no balcão para que “intere" sua passagem de metrô. Percebo claramente que ele está a caminho do trabalho, sinto vontade de ajudá-lo mas não me manifesto... lento e pensativo, o rapaz sai pela porta e volta dez minutos depois. Não aguento manter a neutralidade e o silêncio, lhe pergunto se conseguiu a passagem. O rapaz diz que tomou um café com o que tinha de dinheiro e eu lhe dou os excessivos 3 reais da passagem.

E esse último fato, seria omitido de minha narrativa em uma situação normal, mas o fato é que menciono justamente por não querer me passar por bom moço, minhas possibilidades de rendimentos ali eram bem maiores do que os trocados desembolsados que pagaram pela simpatia e a confiança de quem testemunhou a cena. Por mais legítimo que fosse o gesto, o que aparenta uma boa ação, não passa de um truque de campo descrito em termos técnicos como “can-opener” nos manuais de etnografia.

A espera no saguão do edifício se estende por horas e a senhora no balcão me conta todo o drama de sua vida. Como criou os filhos sem ajuda do marido, como perdeu o filho com problemas respiratórios, como a filha caçula lhe ajuda e o filho mais velho lhe rejeita... Meu interesse pela história da senhora se torna legítimo, sobretudo pela naturalidade com que a história se desenrola. Eis que chega o responsável por autorizar meu acesso ao edifício, interrompendo a boa conversa.

Imediatamente, preparo as minhas câmeras e subo as escadas. Descubro que o elevador não funciona porque os cabos haviam sido roubados e que há moradores em todos os 25 andares do edifício. Subo o primeiro lance de escadas em total escuridão, decido continuar subindo até onde meu fôlego aguentar... não estava muito movimentado mas percebi que alguém subia as escadas no lance inferior ao que eu estava, não era possível ter contato visual com quem subia a menos que eu parasse, eu não pretendia parar. Mais ou menos no meio do prédio, um pouco fatigado pelo jogo de não estabelecer contato com quem subia atrás de mim, decido entrar em um dos andares, era o 12º. Imediatamente noto em todas as portas, palavras de ordem e demarcações com o nome da família e do coordenador responsável. Me ponho a caminhar, andar por andar, observando todas as portas, janelas, incidência de luz, odores... Uma das portas me chama atenção, está manchada de sangue e há junto ao nome da família, onde havia em quase todas as demais portas um apelo para que o apartamento não fosse ocupado por outra família enquanto estes saíam para trabalhar, nesta porta havia uma ameaça de morte escrita com sangue. Senti um pouco de medo mas instintivamente, saquei a câmera, tomei a distância adequada para um bom enquadramento e fiz a fotografia. 35mm, Abertura: 2.0, Velocidade de exposição 1/100, ISO 200.

Em outro andar, noto uma bela incidência de luz próximo as portas do elevador mas me vejo obrigado a correr de um cão furioso até o andar seguinte, onde noto a mesma situação de luz no corredor do elevador, a salvo do cão, faço outra fotografia, do corredor do elevador. 35mm, Abertura: 2.0, Velocidade de exposição 1/30, ISO 200.

A medida que caminho entre os andares, me indago sobre como realmente eu poderia ajudar aquelas famílias. Seria mesmo possível ajudar? Talvez, pelo acúmulo de minhas experiências anteriores documentando temas sociais de certa relevância histórica até, dessa vez eu não estava otimista nem tão entusiasmado em despenhar o meu papel, não bati em nenhuma porta durante toda a visita. Eu estava ali sozinho comigo mesmo, e disposto a não mudar a situação a ponto de evitar o contato com moradores sempre que notava algum ruído. Era como um transe reflexivo, fiz alguns snapshots com meu celular, todas as imagens, introspectivas, que só dizem respeito a mim e a minha condição no lugar. Por fim, subo até o topo do edifício onde encontro aberta, a porta de acesso ao terraço. Fico lá por alguns instantes, fumo um cigarro e respiro... a vista da cidade é incrível, é um prédio mais alto do que a média dos prédios de São Paulo. É possível ver de um nível alto o heliporto da prefeitura, gostaria que um helicóptero pousasse ali naquele momento. Observo os pixos no prédio, faço mais alguns instantâneos com o celular e decido ir embora.

Encontro o saguão do edifício muito mais movimentado do que estava quando cheguei, percebo que esta acontecendo uma troca de turnos entre o pessoal da recepção. Felizmente, a senhora com quem conversei por horas, ainda estava por ali. Peço-lhe um retrato, ela demonstra lisonja no olhar e começa a arrumar o cabelo. Uso um fotômetro perto do rosto dela e tomo a distância necessária para fazer a fotografia. No clímax perfeito onde seria um disparo certeiro, o botão do obturador trava atrasando o retrato em 10 ou 15 segundos, tempo suficiente para que eu sinta esmaecer, um de meus melhores retratos. Talvez o melhor. Dois disparos: 35mm, Abertura: 2.0, Velocidade de exposição 1/60, ISO 200. Não tenho certeza se ficaram bons apesar do esmero com a luz, eu estava muito trêmulo por conta da estafa muscular decorrente de um exagero de atividades físicas alguns dias antes agravada agora, pelo esforço de subir e descer as escadas do edifício. Mas estava ali, uma simpática senhora da qual já não me recordo o nome. Volto pra casa.

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