#OurNetMundial


by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reservedFotografia por Jorge Luiz Campos

Não é novidade pra ninguém que eu ando introvertido e tenho saído pouco de casa, tenho me envolvido pouquíssimo em projetos de amigos e não tenho atuado como ativista, mas amanhã começa um evento chamado #NetMundial que tem potêncial de decidir diretrizes importantes pro futuro da internet. O documento proposto atualmente é inacreditavelmente fraco, elaborado sob interesse de políticos ingênuos ou possivelmente mal intencionados, lobistas e corporações; não contempla pontos vitais como neutralidade e privacidade na rede. O evento principal acontece em um hotel de luxo em São Paulo, o Grand Hyatt. Acontecerá também eventos paralelos como o #ArenaNetMundial no Centro Cultural São Paulo, promovido pela prefeitura e organizado por ativistas com o propósito de conscientizar e mobilizar a sociedade civil para discutir e pressionar a inclusão de pontos não contemplados na elaboração do documento.

Diante desse contexto, é meu dever colocar o #mimimi e a crise existencial de lado e não perder a oportunidade de fazer o que posso para ajudar. Sempre temos a impressão de que podemos intervir pouco (ou nada) no cenário político e é verdade. Mas o fato é que a simples existência das tensões e da introdução de pontos de vista diferente em alguns debates, reflete a nossa existência, a existência de nossas opiniões e dos nossos pontos de vista. Muita coisa mudou no mundo nos últimos 10 anos, muita coisa mudou no Brasil. E ainda que as coisas não mudem na velocidade que gostaríamos, nosso papel promovendo debates, nossa capacidade de resistência, nosso poder de mobilização e nosso voto, tem papel decisivo no destino de muitas questões.

Como ativista, fundador dos Socionautas e mais importante, membro da sociedade civil assim como todos vocês, peço para que participem da maneira que puderem, assistam os debates, escrevam, conversem com amigos, twittem. Nosso pouco poder de falar, de ter uma opinião, ainda é um poder.

Boa sorte e boa campanha a todos. #OurNetMundial

In Favilla

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reservedSão Paulo, Junho de 2013 | Fotografia © Jorge Luiz Campos

O atrito cotidiano em São Paulo, me deixou anestesiado mas não fez de mim um fósforo frio, completamente queimado. Quando eu estava a um passo de me convencer de que a insalubridade que eu via na vida era na verdade, um problema de adaptabilidade da minha parte, minhas questões se deflagraram uma a uma como grandes questões coletivas. Um projeto de poder megalomaníaco se apropriando de toda a cultura digital, a violência policial, o transporte público… Vieram as jornadas de junho e eu estava lá, cansado mas de pé, caminhando entre meus companheiros de luta. Na fatídica noite de 13 de junho, enquanto eu subia um pequeno trecho da Consolação em direção a Avenida Paulista, experimentei o sagrado ao passar por um grande grupo de rostos familiares, os cumprimentei com olhares e abraços mudos pois o barulho dos helicópteros que nos observavam como o condor a carcaça, anulava qualquer possibilidade de comunicação verbal. Todos os abraços tinham também um tom lúgubre, tanto pela convergência do momento quanto pela prevista dissolução logo em seguida. Ali entre a Maria Antônia e a Roosevelt, algo importante morreu mudo para dar a luz a um estardalhaço cacofônico que nasceu em seguida, com uma força incrível e completamente fora do controle.

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reserved

Fui alvo das primeiras bombas atiradas na Maria Antônia. Por algum motivo, era possível sentir no ar que não haveria saída daquele episódio, então decidi não correr como em vão, fez a maioria. Rapidamente, chequei a configuração de duas pequenas ruas laterais que davam acesso a praça Roosevelt, que naquela altura já estava cercada pela polícia encurralando uma massa enorme de manifestantes. Entendi o que iria acontecer e usei esse espaço para alternar entre as áreas espremidas pela tropa de choque. Mesmo com um helicóptero, eu tinha certeza que um comandante da PM não move tropas em um território com a mesma precisão de um jogador de Starcraft, consegui sair ileso por trás de uma das linhas da tropa de choque enquanto a outra avançava do outro lado, comprimindo quem tentou correr ou enfrentar a polícia.

Nas manifestações posteriores a 13 de junho, a atmosfera era completamente diferente. A opinião pública havia mudado de lado e eu não vi mais rostos familiares nas ruas. Assisti um companheiro do PSTU ser atacado por um matilha feroz e infinita de hienas sorridentes com flores nos cabelos antes mesmo que tivesse a oportunidade de se agrupar com seus pares. Fiquei na forja tempo de mais para me iludir ou me deslumbrar com aquele mar de cara-pintadas. Onde alguns viam uma revolução eminente, eu via a face do espírito fascista da população paulistana tomando as ruas, dissolvendo bandeiras de luta com suas caras pintadas e cantos genéricos.

Fotografei sem entusiasmo e sem fazer alarde, como um pai que se vê obrigado a embalsamar um filho morto em combate.

Indiferença

by Jorge L. Campos | Copyright © 2010 All rights reserved
Mídia Ninja Transmitindo a Comissão Extraordinária de Direitos Humanos | Fotografia © Jorge Luiz Campos

Já não me recordo de todos os frames que queimei desde a última vez que estive no Othon. Não foram muitos, um rolo ou dois. Mas me recordo muito bem da falta fé que experimentei naqueles dias. Falta de fé na fotografia como instrumento de promoção de mudanças sociais, falta de fé na esquerda, nos grupos com os quais eu me relacionava, falta de fé no futuro. Cinco anos depois dos meus primeiros e pretensiosos disparos e a única coisa que consegui mudar com minha fotografia foi a minha própria vida. Não necessariamente para melhor pois me tornei uma espécie de mutante juvenil, completamente mutilado pelos processos sociais que experimentei. Sem nenhuma esperança de encontrar meus pares ou construir um futuro autêntico, segundo meus critérios.

Hoje, olhando para aqueles rolos de filme que repousam sobre o meu arquivo de fotocópias, alvos injustos do meu desinteresse, me lembro vagamente de ter conversado mais com os moradores do Othon na segunda visita que fiz. Não por eu estar animado com o trabalho mas pelo simples fato de ter visitado o edifício em um momento mais movimentado da rotina do lugar, de forma que eu me via impossibilitado de transitar sem me reportar e interagir com os moradores, seria grosseiro da minha parte passar por ali mantendo uma postura introspectiva. Eu havia perdido o entusiasmo mas felizmente, me restou o respeito pelas pessoas.

Me impressionou uma senhora de bastante idade carregando dois baldes de água supostamente potável pela altura do 12º andar, conversando com ela, descobri que todo o sistema de água do prédio havia sido desligado, qual fosse a necessidade de água, todo o abastecimento do edifício deveria ser feito por baldes e galões levados aos apartamentos pela escada pois o elevador também não funcionava. Evidente que os moradores dos andares superiores sofriam mais com a situação. Me recordo também de ter passado longas horas sozinho no terraço cuja vista era esplêndida, com aquela altura e localização, com certeza era um dos melhores mirantes da cidade. Fiz algumas fotografias no alto, fotografei vários pousos de helicóptero no heliporto da prefeitura. O terraço do Othon era um bom lugar para monitorar os figurões que chegam de helicóptero na prefeitura a todo momento, alguns faziam selfies com seus celulares antes de deixar a área de pouso. Um ritual curioso.

Mais tarde, da mesma tarde ou em outra, já não importa. Me lembro ter sacado a câmera e queimado mais dois ou três frames em uma reunião na SP Escola de Teatro depois de outra reunião com Ivam Cabral. Ele fez questão que eu participasse de uma reunião que compunha o processo de criação de uma peça seguindo um método bastante estranho e simetricamente curioso para um leigo como eu que desconheço todo o "back end" das artes cênicas. Em seguida, levo o Ivam a uma sessão da Comissão Extraordinária de Direitos Humanos, organizada por alguns companheiros de ativismo na praça Roosevelt em frente ao teatro. Queimo mais dois ou três frames e volto pra casa depois de um telefonema da Bruna, dizendo que estava passando mal. Crise de pânico ou ansiedade, talvez os dois ao mesmo tempo. E é possível que nem mesmo isso me importasse mais.

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